Patrícia Elizium - Voices of the Covenant - Torchbearer/Brasil
É um prazer apresentar Patrícia Elizium, uma integrante dedicada e profundamente comprometida com o Covenant of Hekate. De fala mansa, mas de espírito firme e intenso, Patrícia traz uma força tranquila para tudo o que faz, acompanhada de uma criatividade marcante e de uma impressionante dedicação ao trabalho. Sua devoção se expressa não apenas por meio do estudo e da prática pessoal, mas também por meio do serviço, do ensino, dos rituais, da construção de comunidade e dos muitos projetos que ajudou a criar para os devotos de Hekate no Brasil.
Patrícia também foi uma das pessoas cuja dedicação e trabalho contribuíram para o sucesso do Simpósio de Hekate, realizado em São Paulo em 2025. Nesta entrevista, ela compartilha sua jornada com Hekate, sua compreensão sobre serviço e comunidade e as maneiras pelas quais a devoção, o conhecimento histórico e a prática criativa continuam a moldar seu caminho.
Quando você se juntou pela primeira vez ao Covenant of Hekate, e o que o inspirou a fazer parte dele?
Conheci o Covenant of Hekate em 2016, movida pelo desejo profundo de me aproximar ainda mais de Hekate e de caminhar ao lado daqueles que, como eu, sentem o chamado da Deusa para conhecê-la, estudá-la e desvendar, com reverência, a riqueza de Seus Mistérios.
Encontrei no COH uma comunidade na qual diferentes caminhos, experiências e saberes podem se encontrar e florescer. Para mim, estar entre outros devotos significa aprender, compartilhar e construir conhecimento, buscando fundamentos históricos, tradicionais e acadêmicos que proporcionem solidez à minha prática, me permitindo servir e honrar a Deusa com consciência, responsabilidade, respeito e profunda devoção.
Acredito que aprofundar meus conhecimentos sobre a Deusa Hekate é uma das formas mais bonitas de expressar o meu amor e o meu respeito por Ela. Cada descoberta, cada fonte, cada história recuperada e cada experiência compartilhada são maneiras de me aproximar cada vez mais dos Seus Mistérios e de tornar a minha caminhada devocional mais profunda e verdadeira.
Foi esse desejo de aprender, contribuir e caminhar em comunidade sob a presença de Hekate que me trouxe ao Covenant of Hekate — com a esperança de que, juntos, possamos ampliar continuamente os conhecimentos sobre a Deusa e abrir caminhos para que outros devotos também possam encontrá-la, compreendê-la, louvá-la e aproximar-se de Seus Mistérios com respeito, amor e reverência.

O que inicialmente o atraiu para Hekate, e como essa conexão inicial se desenvolveu ao longo do tempo?
Na verdade foi a Deusa que se aproximou de mim de ano de 2001 em um momento de noite escura da alma.
Costumo dizer que este episódio foi um ponto decisivo de virada na minha vida. Foi um momento de muitas tensões, rompimentos e questionamentos em que me vi literalmente sozinha, decepcionada ,questionadora e reflexiva, pois tudo ao meu redor estava colapsando e ruindo.....
Me vi sozinha, sem escolhas, sem saidas, sem perspectivas, totalmente mergulhada em minha mais profunda escuridão....
O mais curioso dentro de todo esse processo é que embora isolada do mundo e de todos eu sentia, lá no fundo, que de alguma maneira alguém me observava. Sentia uma presença uma presença sútil que eu não conseguia identificar....
Eu havia encerrado a pouco um caminho mágico por conta de algumas divergências e posturas inadmissiveis praticadas por parte daqueles qie deveriam zelar pela Arte. Sentindo que não pertencia àquele lugar optei por encerrar ali a minha jornada por aqueles caminhos, e buscar solitariamente pelo meu verdadeiro lugar, e ao iniciar esta jornada solitária, abandonando os antigos caminhos foi quando tudo ruiu ...... E em meio a toda essa escuridão repleta de provações, perdas e forjas intensas, desisti parar de evitar me defrontar com o meu verdadeiro caminho junto aos Deuses, e muitoi humildemente de coração aberto busquei pelo auxílio da Deusa em seu aspecto mais universal, dizendo a Ela: “ Se for para eu seguir algum caminho que seja sério revele-se para mim, para que eu possa saber por onde caminhar e como lhe chamar, pois eu sei que você esta aqui acompanhando tudo o que estava acontecendo, mas não sei o seu nome” e foi neste momento em que eu tive uma visão acompanahda de uma experiência que transformou completamente toda a minha jornada, me recolocando no caminho correto, me restaurando, trazendo esperança, me possibilitando voltar a confiar nos Deuses, e me despertando uma sensação intensa de pertencimento como nunca havia sentido..... me senti como se estivesse retornando para minha casa, e o mais curioso, através da conexão com uma Deusa com a qual eu nunca havia tido qualquer tipo de contato, sequer buscado conhecê-la.... Foi ali a primeira vez que ouvi falar sobre Hekate, quando ela se mostrou para mim, me tocando no fundo de minha alma.
Passei por alguns momentos muito duros e provadores. Realizei sacrifícios, precisei aprender a lidar com as minhas dores, conhecer a minha verdadeira escuridão, enxergar os meus medos e desafiá-los. Ela me fez enxergar e entender todos estes processos para que eu pudesse voltar a caminhar entre os homens e nas sendas da Arte, com um olhar mais apurado sobre o mundo e tudo o que o permeia, além de me propiciar uma mente desperta......
Posso dizer que foi Hekate que me propôs uma forja intensa, que teve como propósito desconstruir aquela antiga versão de mim para que eu pudesse despertar , me reconstruir e me tornar a minha melhor versão, mais ávida, mais consciente, desperta, buscando lapidar a mim e as minhas virtudes dentro do caminho que escolhi trilhar ao lado D¨Ela, a cada novo da dia da minha vida ...
Ela me mostra a cada novo dia a força que habita dentro de mim e como utilizá-la mesmo nos momentos de mais intensa escuridão, e desde então, seguimos juntas pelos caminhos desta e outras vidas que os nossos pés desejarem tocar.
Nossa relação começou com um encontro em meio a momentos de perda e dor e se transformou em um caminho intenso de devoção, estudo, prática e pertencimento. Ao longo desses anos, minha conexão com Ela se aprofunda cada vez mais na busca de uma constante compreensão e entendimento dos seus Mistérios.
Hekate não apenas me ajudou a atravessar a escuridão, mas sim a caminhar por ela com mais coragem, consciência, força e lucidez.

O que o levou a se tornar Torchbearer ou Keybearer dentro do Covenant?
O que me levou a me tornar um Torchbearer foi o desejo sincero de contribuir de forma mais ativa e consciente com a nossa comunidade.
Vejo essa função como uma oportunidade de servir, acolher, orientar e apoiar outros buscadores em suas jornadas, compartilhando aprendizados, fortalecendo os laços que nos unem dentro do Covenant, contribuindo também para que cada um possa encontrar sua própria direção da sua jornada.
Como você entende hoje o seu papel como Torchbearer ou Keybearer?
Compreendo o meu papel de Torchbearer como uma oportunidade de servir à comunidade e aos buscadores com presença, responsabilidade e discernimento. Estando disponível para aqueles que desejam compreender mais profundamente os Mistérios da Deusa, oferecendo orientação, acolhimento e referências seguras, sem imposição de respostas, favorecendo o desenvolvimento de sua própria compreensão e jornada.
Também entendo esse papel como o de construir pontes: incentivar relações e conexões sólidas, respeitosas e bem fundamentadas, fortalecendo os vínculos de comunidade e o senso de pertencimento. Mais do que conduzir alguém por um caminho, acredito que cabe a nós enquanto Torchbearer oferecer luz e direcionamento para que cada buscador possa, ao seu próprio tempo, desenvolver autonomia, discernimento e uma relação cada vez mais profunda com Hekate.
Sinto-me profundamente realizada ao poder auxiliar aqueles que estão iniciando seus caminhos, especialmente os novos buscadores que chegam em busca de conhecimento, compreensão e uma conexão mais profunda com a Deusa. Há algo de muito significativo para mim em poder ser uma pequena luz em seus caminhos, oferecendo presença, escuta e aquilo que, ao longo da minha própria jornada, tive a oportunidade de aprender.
Doar meu tempo à comunidade, com amor, dedicação e carinho, é algo que verdadeiramente me preenche. Compartilhar os saberes sobre Hekate com aqueles que genuinamente desejam conhecê-la e compreender Seus Mistérios é, para mim, uma forma de serviço e também uma expressão de gratidão por tudo aquilo que essa caminhada tem me proporcionado.
Para mim, ser um Torchbearer é iluminar caminhos sem determinar os passos de quem os percorre; é oferecer luz, presença e orientação, permitindo que cada buscador encontre, por si mesmo, o caminho que realmente lhe pertence.
A sua compreensão de Hekate mudou desde que você entrou para o Covenant? Em caso afirmativo, o que mudou?
Sim, muito. Desde que entrei para o Covenant, minha compreensão à respeito de Hekate se ampliou profundamente por meio do estudo e das trocas com outros devotos, Torchbearers e Keybearers. Essas experiências me permitiram perceber com maior clareza a amplitude e a multiplicidade da Deusa, compreendendo como Sua presença pode se manifestar de formas particulares em diferentes tempos, lugares e experiências devocionais, sem perder Sua essência.
Ao mesmo tempo, passei a reconhecer ainda mais a importância de construirmos um repertório de conhecimento sólido, responsável e bem fundamentado. Conhecer Seus atributos, Suas raízes, a história de Seu culto e as transformações pelas quais ele passou ao longo do tempo nos permite desenvolver práticas devocionais e sacerdotais mais conscientes e coerentes, mantendo uma conexão verdadeira com a ancestralidade que sustenta o seu culto.
Acredito que esse conhecimento seja essencial para que possamos adaptar nossas práticas ao presente sem perder o vínculo com aquilo que lhes dá sentido e fundamento. Preservar a memória, compreender a ancestralidade e reconhecer as transformações do culto nos permite manter viva a essência de Hekate, estabelecendo uma ponte entre aqueles que A honraram no passado, aqueles que caminham com Ela nos dias atuais e aqueles que ainda virão a trilhar os seus caminhos.
A compreensão que possuo hoje à respeito da Deusa é muito mais expandida, e essa expansão é derivada não apenas de um acumulo de saberes e informações à respeito da Deusa mas porque me permiti senti-la sem medo ou conceitos pré-estabelcidos, aprendendo a compreender com maior profundidade suas manifestações e todas as responsabilidades de caminhar com Ela, preservando Suas raízes enquanto encontro, no presente, minha própria forma de vivenciar e honrar Seus Mistérios.
Qual nome, título, símbolo ou imagem de Hekate é mais significativo para você, e por quê?
São tantos títulos interessantes e importantes, mas o que mais profundamente ressoa em mim é “Alma Cósmica do Mundo”. Essa expressão, presente na tradição dos Oráculos Caldeus, traduz para mim uma das dimensões mais profundas e grandiosas da Deusa: Hekate como fonte primordial, matriz da criação e origem das almas. Vejo-a como uma fonte infinita da qual todas as almas procedem e à qual, em algum momento, haverão de retornar. Somos, nesse sentido, pequenas centelhas que se desprendem dessa fonte e, ainda que temporariamente individualizadas, jamais deixamos de pertencer a Ela. Essa compreensão me toca profundamente, pois me faz perceber a Deusa não apenas como uma divindade que cultuo, mas como uma presença primordial da qual todos fazemos parte.
As representações clássicas da Deusa são as que mais me atraem. Elas me remetem a uma dimensão mais ancestral de Seu culto, que é também a forma pela qual, instintivamente, sinto maior afinidade e respeito. Identifico-me profundamente com a ideia de um culto que preserva sua relação com a antiguidade, com seus símbolos, mistérios e elementos rituais. Contemplar essas imagens estabelece para mim uma conexão quase imediata com Sua ancestralidade e com todos aqueles que a honraram antes de mim. É como se, por meio delas (representações clássicas), eu pudesse estabelecer uma ponte entre o presente e uma longa linhagem de devoção que nos precede.
Entre os símbolos de Hekate, são os cães que despertam em mim uma conexão mais visceral. Eles me remetem especialmente à natureza liminar da Deusa e à capacidade de transitar entre diferentes mundos e fronteiras. Sempre tive uma percepção muito sensível e uma afinidade profunda com aquilo que se encontra entre os limites do visível e do invisível. Vejo nos cães, uma qualidade muito especial que os aproxima de um papel meio que de mediadores entre os limiares, pela sua percepção aguçada, seu instinto apurado e a maneira como parecem perceber aquilo que muitas vezes escapa aos nossos sentidos.
Essa identificação é particularmente significativa para mim, porque a dimensão liminar e o papel de psicopompo também ocupam um lugar muito importante em minha própria prática. Sinto-me profundamente conectada a esse trânsito entre planos e ao trabalho de acompanhar, orientar e auxiliar aqueles que atravessam esses limiares.
Assim, esses três aspectos — Hekate como Alma Cósmica do Mundo, Suas imagens ancestrais e Seus cães — representam diferentes dimensões da minha relação com a Deusa: Sua natureza primordial e cósmica, a ancestralidade de Seu culto e, por fim, Sua profunda ligação com os limiares e com aquilo que existe entre os mundos. É justamente nessa interseção entre o cósmico, o ancestral e o liminar que encontro uma das expressões mais profundas da minha devoção a Hekate.

De que maneira a sua devoção a Hekate molda o seu trabalho pessoal, prática ou serviço?
Minha devoção a Hekate molda meu trabalho pessoal, minha vida, minha prática e meu serviço junto a Deusa por meio do exercício constante das cinco virtudes hekateanas: sabedoria, coragem, justiça, temperança e compaixão. Para mim, elas não são apenas princípios, mas fundamentos de conduta e instrumentos de transformação, que orientam minha vida, minhas escolhas e minha forma de me relacionar com o mundo e com a comunidade.
Procuro permitir que a justiça esteja presente em minhas ações, que a temperança traga equilíbrio à minha alma, que a coragem esteja presente em minhas escolhas, que a sabedoria conduza minhas palavras e que a compaixão se estenda a todos os seres. Exercitá-las diariamente tem me levado a observar a mim mesma com maior honestidade e a compreender como minhas escolhas reverberam nas minhas relações e no mundo ao meu redor.
Minha devoção representa, para mim, uma verdade que precisa ser vivida, e não apenas professada. Por isso, busco transformar os ensinamentos dessas cinco virtudes em atitudes concretas, utilizando-as como instrumentos de aprimoramento pessoal e ético.
Acredito que servir a Hekate começa também pelo compromisso de tornar-me uma pessoa melhor. Quanto mais procuro incorporar essas virtudes à minha vida, mais minha prática devocional se torna viva e significativa, refletindo-se naturalmente na forma como me relaciono, sirvo e contribuo com aqueles que caminham ao meu redor.
Qual é o papel da comunidade no seu caminho hekateano?
A comunidade hekateana ocupa um lugar muito importante em meu caminho. Vejo-a como um ponto de encontro e um espaço seguro para devotos e buscadores, onde podemos encontrar acolhimento, compartilhar saberes, experiências e aprendizados, e fortalecer uns aos outros ao longo de nossas jornadas.
Entendo a comunidade como uma rede de apoio e crescimento, na qual diferentes caminhos e experiências se encontram sob uma mesma devoção. Um espaço que nos oferece pertencimento, conhecimento e suporte, mas que também nos convida ao amadurecimento, ao discernimento e à responsabilidade em nossa caminhada.
Mais do que um espaço de convivência entre aqueles que honram Hekate, acredito que a comunidade deve ser uma extensão viva da própria devoção: um lugar de troca, aprendizado, acolhimento e fortalecimento, que nos acompanha e nos prepara para os desafios da vida, enquanto caminhamos, como seres humanos e buscadores, em direção a uma compreensão cada vez mais profunda dos Mistérios da Deusa.
Como você equilibra experiência pessoal, devoção e fontes históricas no seu trabalho com Hekate?
Procuro equilibrar esses aspectos tendo os textos clássicos e as fontes da Antiguidade como o alicerce da minha prática devocional. Eles constituem uma fonte fundamental de conhecimento sobre Hekate e Seu culto, oferecendo uma base sólida e bem fundamentada para compreender Seus atributos, Sua tradição e os contextos nos quais foi historicamente cultuada.
Acredito que, mesmo diante das transformações trazidas pela modernidade, é essencial preservar essas raízes e manter nossas práticas conectadas à ancestralidade do culto. A contemporaneidade pode ampliar e enriquecer nossa experiência, mas não deve substituir os fundamentos históricos que sustentam nossa devoção.
Sobre esse alicerce, acrescento as experiências que construí ao longo do tempo: vivências rituais, percepções pessoais, sonhos e inspirações que compreendo como formas de aprendizado e aproximação com a Deusa. Essas experiências podem complementar, ampliar e aprofundar aquilo que aprendemos, mas não devem substituir a base histórica nem ser tomadas como equivalentes às fontes tradicionais.
Vejo esse processo como uma construção: as fontes históricas fornecem os alicerces; o estudo ergue a estrutura; nossas experiências devocionais acrescentam novas camadas; e a prática, inspirada e lapidada ao longo do caminho, dá vida a essa construção. É nesse equilíbrio entre ancestralidade, conhecimento, experiência e prática que procuro manter meu culto a Hekate vivo e significativo, sem perder a conexão com suas raízes.
O que você sente que é mais frequentemente mal compreendido sobre Hekate nas comunidades pagãs ou mágicas modernas?
Acredito que um dos aspectos mais frequentemente mal compreendidos sobre Hekate seja a redução de Sua natureza aos aspectos sombrios, associando-a quase exclusivamente à morte, à magia, ao submundo e às sombras, distanciando-a dos seus atributos originários, obscurecendo suas qualidades mais benevolentes, protetoras e luminosas. Embora essas dimensões mais sombrias e obscuras façam parte de Sua natureza liminar e complexa, transformá-las em Sua principal ou única expressão acaba por empobrecer profundamente a amplitude de Seus atributos.
Também considero mal compreendida e limitadora a associação de Hekate à chamada “face anciã” da Deusa Tríplice, especialmente em determinadas correntes da Wicca. Trata-se de uma construção religiosa moderna que não deve ser tomada como definição da identidade ou da totalidade da Deusa, cuja natureza e atributos são muito mais amplos e anteriores a esse modelo.

Existe alguma prática, oração, ritual ou observância hekateana que se tornou especialmente importante para você?
Sim. Minha devoção a Hekate está profundamente integrada à minha vida cotidiana, por meio de práticas que, com o tempo, tornaram-se parte natural da minha rotina.
Antes da realização das minhas práticas devocionais, realizo minha purificação com khernips,
Pela manhã, saúdo meu altar ao me levantar, sempre agradeço por um novo dia e peço proteção para mim e para minha família. Ao atravessar portas, portões ou encontrar encruzilhadas, lembro-me de Hekate e peço que Ela guie meus caminhos e guarde aqueles que amo.
Todas as noites, antes de dormir, ofereço incenso e chama à Deusa e entoo o Hino Órfico como forma de conexão e reverência.
Celebro o Deipnon em cada Lua Negra/Nova, momento no qual além da minha prática devocional, também realizo minhas atividades como psicopompo dentro daquele período.
Realizo sempre 3 libações como oferenda em meus ritos, e possuo uma placa e Hekate posicionada na porta de entrada da minha casa.
Para mim, esses ritos transcendem a prática formal: tornaram-se uma maneira de manter Hekate presente no cotidiano, reconhecendo Sua presença nos limiares, buscando Sua orientação e cultivando, dia após dia, uma relação viva e consciente com a Deusa.
Existe algum trabalho, projeto, grupo, escrita, arte, ritual ou serviço relacionado a Hekate que você gostaria de compartilhar com os leitores?
Sim. Existem diversos trabalhos e projetos que desenvolvo junto a Hekate e que nasceram, sobretudo, do amor e da devoção que tenho pela Deusa e do desejo de compartilhar com outros aquilo que Ela tem me permitido aprender e construir ao longo dessa caminhada.
Sou co-fundadora do “Santuário de Hekate Hegemonen”, uma realização que considero um dos maiores presentes que minha devoção me proporcionou. Através dele, tivemos a oportunidade de ampliar nosso trabalho devocional e criar espaços de estudo, acolhimento, prática e serviço para a comunidade.
Entre esses trabalhos está o “ Círculo de Dadophoros” , nosso principal círculo de estudos sobre Hekate. Um círculo de estudos dedicado a devotos, buscadores e curiosos que desejam aprofundar seu conhecimento sobre Hekate e Seus Mistérios. Ao longo de nove encontros, unimos estudo teórico, práticas e experiências devocionais, buscando oferecer referências consistentes, ampliar o repertório dos participantes e auxiliá-los a construir uma relação mais consciente, segura e autêntica com a Deusa. Dentro desse trabalho, desenvolvemos também estudos dedicados aos Seus epítetos, buscando compreender a multiplicidade de Suas manifestações e atributos., todo nosso trabalho tem como base os textos clássicos da antiguidade.
O Santuário oferece ainda o “Caldeirão de Pedidos”, momento em que seus membros se reúnem para acolher pedidos da comunidade e direcioná-los à Deusa por meio de uma prática devocional coletiva.
Entre os trabalhos que desenvolvo pessoalmente, a “Bênção de Hekate”, realizada às segundas-feiras, ocupa um lugar especialmente querido. Recebo nomes e pedidos daqueles que buscam uma bênção, força ou direcionamento para atravessar momentos de dificuldade, dedicando-lhes um rito de conexão e amparo junto à Deusa.É uma prática simples, mas que me proporciona uma profunda sensação de serviço e conexão com a Deusa.
Durante a pandemia, desenvolvi um projeto intitulado a “Trezena de Soteira”, um projeto com o propósito de compartilhar as bênçãos de Hekate em um período de grande incerteza e sofrimento. O projeto nasceu como uma forma de oferecer acolhimento, conforto e esperança, mas acabou alcançando proporções que eu não imaginava, sendo compartilhado por devotos de diferentes regiões do Brasil e da América Latina. Entre suas intenções estava também inspirar aqueles que atuavam na área da saúde e na pesquisa científica, especialmente no desenvolvimento de vacinas, em um momento em que o mundo necessitava profundamente de proteção e cura.
Também desenvolvo o podcast “Entre Caminhos, Chaves e Portas”, composto por meditações guiadas junto a diversos epitetos da Deusa , com o propósito de possibilitar reflexões, fortalecer as conexões e possibilitar uma maior aproximação com diferentes aspectos da Deusa. E o “Arcana – Empório de Bruxaria Hekateano”, um empório de bruxaria online dedicado à criação insumos mágicos, chamas devocionais, objetos, instrumentos e peças destinadas às práticas mágicas e devocionais relacionadas a Hekate.
Além desses projetos, os ritos ocupam um lugar muito especial em minha devoção. Gosto particularmente de pesquisar, construir e desenvolver rituais e invocações para ocasiões específicas, procurando unir fundamento, intenção, dedicação , amor e experiência devocional.
Também realizo ritos públicos, atividades dedicados a Hekate dentro da nossa comunidade e a celebração Anual do Rito dos Seus Fogos Sagrados no Museu Brasileiro de Magia e Bruxaria .
Todos esses trabalhos possuem, para mim, um mesmo fio condutor: o desejo de transformar minha devoção em serviço. Em um momento em que as redes sociais oferecem inúmeras portas de acesso ao universo hekateano, acredito que também temos a responsabilidade de oferecer caminhos seguros, fundamentados e conscientes. Meu propósito é contribuir para que devotos, buscadores e curiosos encontrem não apenas informações, mas espaços de estudo, acolhimento, prática e conexão para criarem vínculos seguros e verdadeiros com Hekate.
No fundo, cada projeto é uma expressão diferente da mesma devoção: meu amor pela Deusa e minha gratidão pela oportunidade de servi-la, compartilhando Sua luz, Seus Mistérios e os caminhos que Ela continua abrindo diante de cada um de nós.
Que conselho você daria a alguém que está apenas começando o seu caminho com Hekate?
Eu diria: aproximem-se de Hekate com o coração aberto e os conceitos em silêncio. Antes de tentar defini-la, permitam-se conhecê-la; aproximem-se de Sua presença, de Sua potência e de Sua intensa magnitude e imensa multiplicidade.
Estejam dispostos a estudar. Uma caminhada consciente junto à Deusa exige conhecimento, discernimento e fundamentos sólidos. O culto a Hekate não se resume a ritos ou oferendas; é também um caminho de autoconhecimento, de atravessamento de limiares, de integração entre luz e sombra e de escolhas feitas com consciência.
E, sobretudo, não tenham pressa em encontrar respostas. Hekate não nos entrega caminhos prontos: Ela nos apresenta as encruzilhadas e nos confia as chaves. Cabe a cada um de nós escolher a porta, atravessar os limiares e descobrir por si mesmo, ao longo da própria jornada, aquilo que procura.
Aproximem-se com respeito, estudem com humildade e caminhem com coragem. Algumas portas só se revelam quando estamos prontos para atravessá-las.



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